Argo fuck yourself


Não seremos

Hoje, especial e particularmente hoje, 26 anos após a a morte do Zeca, importa recordar que a herança da portugalidade implica a responsabilidade de não perpetuarmos diariamente Alcácer-Quibir. Como tal, "Não seremos pais incógnitos / Netos de filhos ignaros".

"O Dâmaso era uma besta imunda"

Em Miguel Relvas há muito de Dâmaso Salcede

Um ano depois

Um diálogo permanente e permanentemente feito de silêncio, de ausência.

Seremos, mais uma vez, uma nêspera, amanhã?

Expectativas escatológicas

Carlos Abreu Amorim (o nosso cabreu), o deputado da Nação, disse hoje que "Estamos obrigados a tudo fazer para reganharmos a soberania, esta geração não pode desistir" e que apenas dessa forma será possível "frustrar as expectativas escatológicas daqueles que querem que todos percam a esperança". [link]
É isto. O objecto define-se por si e confirma as expectativas escatológicas que todos sempre tivemos respectivamente ao seu desempenho como deputado.

O 5 de Outubro de 2012


Conheço poucas imagens que tanto se assemelhem ao objecto. Numa lusitana Nave dos Loucos, experimentamos a vivência de um mundo às avessas, em que tudo é carnavalesco.
Hoje aconteceu-me uma coisa estranha, já não sabia o que tinha acontecido primeiro: se fora Alcácer-Quibir ou a fundação de Portugal.
[link]

Poesia e Twitter


Leia-se:

em frente à gulbenkien
uma idosa 
à janela
da casa 
bate numa panela

[link]

Estupor de país!

[fotografia de Jorge Simão Meira]

Guterres fugiu. Durão fugiu. Depois fomos governados pelos bonecos da Disney ou pela Nau Catrineta ou por um qualquer sifão de retrete, plástico e curvo.

Foi Santana Lopes e Sócrates (o José). É Passos Coelho (ou simplesmente o Pedro) e um triste horizonte de Tó-Zé Seguro, mais os Relvas que substituem os Coelhos que conviviam com os Assis que poluíam como as santantetes, mas com menos gritinhos . Ficou a ameaça do menino guerreiro que diz andar por aí, o bicho da Madeira que escarra tolices, o que se exilou em Paris, fingindo uma licenciatura tão honesta como a anterior, e por aí fora e pelo país dentro.

O país traiu-se a si próprio na ânsia de encornar a esmola europeia. E agora é isto: um estupor encarcerado na obediência cega. A libertação terá de ser solitária, sem bebedeiras de alegria nem inconsciências tocadas a mosto.

You must say goodbye to me

1985
Com este álbum de Tom Waits começava verdadeiramente toda a adolescência.

We sail tonight for Singapore, we're all as mad as hatters here / I've fallen for a tawny Moor, took off to the land of Nod / Drank with all the Chinamen, walked the sewers of Paris / I danced along a colored wind, dangled from a rope of sand / You must say goodbye to me [link]


E durante anos ficou sempre, na promessa da viagem para qualquer Singapura longe do berço, da serrania, a garantia de que na viagem obrigatoriamente se cantaria "you must say goodbye to me".


Carlos Abreu Amorim, o nosso velho conhecido "CAbreu" dos primórdios da blogosfera, deu em deputado da nação. Continuamos hoje como estávamos então, continuamos sem saber para que serve o dito CAbreu, mas lá, no partido, deram-lhe utilidade. Usa pin na lapela. E isso distingue-o (distingue-os). O CAbreu perora e diz que concorda. O CAbreu é uma espécie de espanador do casaco do Passos (e do pin na lapela do casaco do Passos). O CAbreu é um posfácio de espanador, mas julgo que ele nem isso sabe. E isso faz do CAbreu um deputado feliz, por vezes feliz em demasia. Lá dizia o O'Neill que "Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia, podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima como poder, é, quase sempre, um perigo."

De Eugénio Lisboa para Pedro Passos Coelho




Peço desculpa a Eugénio Lisboa por lhe amputar (com a mesma forma desastrada e calculada com que Passos Coelho nos vai amputando a portugalidade) o pertinente texto que fez publicar originalmente no blog De Rerum Natura.

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«Exmo. Senhor Primeiro Ministro

Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. […]

Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. […]

Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter,para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso. […]

V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa. e do seu robótico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página. Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.

Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.

De V. Exa., atentamente,
Eugénio Lisboa»

[link]
Aproximámo-nos dos gregos, mas rejeitámos o pacote. O mexilhão passou oficialmente a ser uma espécie metonímia.


Aforismo:

Se o Governo limpa o cu na constituição, os portugueses que limpem o cu no Governo.

Todos somos islandeses!!

Islândia defende investigação ao Governo português [link]


O verdadeiro momento breaking bad

Aquele momento em que uma série televisiva se transforma numa série televisiva de culto. O momento, aquele momento, o tal momento:

(atenção: spoiler para quem ainda não viu a totalidade da temporada 4)

Anteontem...



O homem que fotografa o homem que fotografa um tubarão morto numa banca de peixe - anteontem.

SG Gigante e nunca Português Suave


Não há volta a dar. Volta não volta regresso às origens. Voltar ao Sérgio Godinho dos anos 70 é reencontrar-me com uma educação bem maior do que uma “educação musical”. Não há volta a dar e também não quero que haja.

Imagens seminais. 91



 1971. Vanishing Point. Richard C. Sarafian.

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era apenas isto, perdão era apenas daquele tamanho, mas era muito mais do que o seu tamanho

A agulha no vinil




Não sei se é o som da agulha no vinil, a imitação do som da agulha no vinil, a digitalização pura da impureza do som da agulha no vinil... não sei se é isso ou se é a recordação do Death Proof. E o Death Proof é tão impuro como o inimitável som da agulha no vinil, é uma digitalização tão perfeita da imagem rugosa como a rugosidade digitalizada do som da agulha no vinil. Não sei de onde vem este fascínio. Possivelmente, é mesmo da música.

Moonrise Kingdom















Não é bom e não é mau. Está para além disso. É a tal visão infantil que nos diz que o cinema, tal como a poesia, não precisa de rimar... basta-lhe ser criativo.

Tu Marcellus eris

Hoje, na sua homilia semanal, o professor Marcelo Rebelo de Sousa apelou para que os portugueses que possam gozar as férias no estrangeiro não o façam. Diz ele que nestes tempos de austeridade isso não fica bem. Depois de os termos visto durante tanto tempo a brincar à caridadezinha, o que fica bem é vê-los a brincar à austeridadezinha.

Horizontes da Memória

Cilício de uma penitência desconhecida


Santana Lopes, José Sócrates, Miguel Relvas, Alberto João Jardim…

"Carta de despedida aos amigos", Gabriel Garcia Marquez


“Se por um instante Deus se esquecesse que sou uma marioneta de trapo e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso, mas pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais.
Entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos 60 segundos de luz.
Andaria quando os outros param, acordaria quando os outros dormem.
Ouviria quando os outros falam e como desfrutaria de um bom gelado de chocolate…
Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.
Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre gelo e esperava que nascesse o sol.
Pintaria com um sonho de Van Gogh as estrelas de um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que oferecia à Lua.
Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas…
Meu Deus, se eu tivesse um pouco mais de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas.
Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo Amor.
Aos Homens, provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar.
A uma criança dar-lhe-ia asas, mas teria de aprender a voar sozinha.
Aos velhos, ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, Homens…
Aprendi que todo o mundo quer viver em cima de uma montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta.
Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão, pela 1ª vez, o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre.
Aprendi que um Homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me hão-de servir realmente de muito, porque quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer…”

Gabriel Garcia Marquez

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Ao ler esta carta de despedida, recente e  publicitada ad nauseam, é impossível não recordar estas outras palavras de Gabriel Garcia Marquez:

 Le rogó a dios que le concediera al menos un instante para que él no se fuera sin saber cuánto lo había querido por encima de las dudas de ambos, y sintió un apremio irresistible de empezar la vida con él otra vez desde el principio para decirse todo lo que se les quedó sin decir, y volver a hacer bien cualquier cosa que hubieran hecho mal en el pasado.
Fragmento de El amor en los tiempos del cólera, Gabriel García Márquez  

Transeunte do zapping

10:45h. Hoje, agora mesmo. RTP Informação. Em Serralves, um jornalista pergunta a uma transeunte "Quais foram os assuntos que lhe pediram opinião?".

[Por vezes, num erro vai tanto potencial poético.]

O caminho




























Um caminho onde o único caminho é reflectir.

Cisão do átomo

"E uma revolução divide a sua pátria ao dividir cada indivíduo."

escrito por alguém, lido não sei onde, anotado num papel perdido, encontrado hoje, reproduzido agora

E assim sucessivamente

O erro do observador curioso é pensar que tem o direito de saber o que é que o outro constrói ali dentro, dentro do seu eu. E é nesse erro que se torna fascinante não a construção do observado, mas a construção do observador. O que é que o observador constrói ao observar a coisa observada?

E assim sucessivamente.

E assim sucessivamente com todos nós e com todos os espelhos.

25 de Abril e a actualidade de Miguel Torga

“Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que apesar de tudo valeu a pena assistir ao descalabro. Pelo menos não morro iludido, como os que partiram nas vésperas do terramoto. Cuidavam que combatiam pelo futuro e, na verdade, assim acontecia, mas apenas na medida em que o sonhavam como se ele tivesse de ser coerente com a dignidade do seu passado de lutadores. O trágico é que um futuro sonhado não passa de uma ficção”
(Diário, Coimbra, 20 de Junho de 1975).

“O que apelidamos de revolução é um despautério social a que teimamos em dar esse nome sagrado. Quem faz revoluções não exibe revoluções”
(Diário, Coimbra, 1 de Julho de 1975).

“Bem quero, mas não consigo alhear-me da comédia democrática que substituiu a tragédia autocrática no palco do país. Só nós! Dá vontade de chorar, ver tanta irreflexão. Não aprendemos nenhuma lição política, por mais eloquente que seja. Cinquenta anos a suspirar sem glória pelo fim de um jugo humilhante, e quando temos a oportunidade de ser verdadeiramente livres escravizamo-nos às nossas obsessões. Ninguém aqui entende outra voz que não seja a dos seus humores. É humoralmente que elegemos, que legislamos, que governamos. E somos uma comunidade de solidões impulsivas a todos os níveis da cidadania. Com oitocentos anos de História, parecemos crianças sociais. Jogamos às escondidas nos corredores das instituições”
(Diário, Chaves, 12 de Setembro de 1978).

Shame: "New York New York"

Uma treta de filme, com um excelente actor e uma excelente actriz. Esta cena vale mais do que todo o filme.

Faltas-nos

Faltas-nos. E não, a saudade não é 'poetizável'. E não, a dor da tua ausência não passa. Por vezes, é como que adormece sobressaltada, mas não passa. Quem passa somos nós. Todos nós, todos.

Acerca de kony e da justificada indignação global, viral...

Take your time

Ausência

O que é póstumo é sempre lúgubre.

Uma certeza alegre em triste tom

Destino

Estação

No Oriente a oriente do Oriente

"Porque os outros se calam, mas tu não"

"Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão"
(Sophia de Mello Breyner)

Neste momento vértice do devir histórico, há esperança porque há quem não cale contra os que que usam a virtude para comprar o que não tem perdão. Neste sentido, louva-se o texto Povos e circunstâncias, publicado pelo Rui Tavares. Hoje, ser grego é também estar à altura da herança cultural humanista e europeia.

O dia naperon


O dia dos namorados é um dia naperon com tal parolice que, um destes dias, ainda chega a ser um dia naperão. É foleiro. É foleiramente fluffy, com folhos cor-de-rosa. É gordinho, pior, é fofinho. É feito de coraçõezinhos gordos e caixas de bombons. É dia que fica marcado por postais ridículos. É um dia adolescente, borbulhoso, a cheirar a noivo de província, com penteado de ir à madrinha, mas numa versão tunning.

“The Artist” (Quando o cinema era criança)



Apetece começar pelo início e dizer, por escrito e sem voz, que, quando o cinema era criança, narrava como cinema da mesma forma que Peter Handke escrevia que “Quando a criança era criança, pensava como criança”. As palavras de Handke iniciavam o poema que Wenders filmou entre anjos e homens, entre as muitas cores e as duas cores básicas do cinema, o preto e o branco, num mundo dividido entre todos os tons de cinzento que aproximavam os homens dos anjos.

Quando o cinema era criança, narrava como cinema, sem voz, com música, com palavras escritas, com imagens narrativas, com exagero, com glamour, com artistas e com o artista. Quando o cinema era criança, narrava como cinema e recusava-se a crescer. A criança acreditava na eternidade da imagem em movimento, no primado da imagem em movimento. Acreditava a criança que a voz imaginada seria sempre preferida à voz ouvida. Acreditava a criança que a imaginação era a vida. Quando o cinema era criança, narrava como criança. E, quando o cinema brincava ao cinema, inventava brincadeiras com luzes e sombra, e os homens grandes chamavam-lhe expressionismo. Murnau, por exemplo, lá ia mostrando como, entre as sombras, se podia criar luz. Quando o cinema era criança, sabia que o valor figurativo era, antes de tudo, um primado estético. Quando o cinema era criança, brincava com os ritmos. Epstein e Eisenstein eram crianças que, no recreio, mostravam como diferentes ritmos servem diferentes objectivos de brincadeira. Feyder brincava com o ponto de vista do narrador (da câmara) e Epstein brincava com o ponto de vista de René Clair, antes de chegar Buñuel para brincar com o ponto de vista de todos os outros. O Kuleshov brincava à justaposição de planos e lá ia explicando aos homens grandes que 1+1 era, realmente, igual a 3, bastava saber olhar. E se havia quem soubesse perceber esse olhar, esse alguém era o Pudovkin… Quando o cinema era criança, o recreio da escola ia da União Soviética aos Estados Unidos, passando por França e Alemanha.

Hoje, o cinema é um adulto que nem sabe muito bem para onde quer ir, porque raramente se lembra de onde veio. Ainda assim, há quem saiba que, por mais que cresça, é na criança que encontra as raízes do que poderá vir a ser.

Por mais que custe a muitos dos actuais desenraizados, o cinema só foi imagem enquanto foi criança. Enquanto foi uma arte que sonhava nunca ser uma indústria.

Isso era no tempo em que o cinema era uma linguagem que dispensava a voz. Michel Hazanavicius conduziu-nos a esse tempo, ao tempo em que o cinema deixou de ser criança e começou a querer falar. Ao conduzir-nos a esse tempo, convocou todas as “crianças” supracitadas (e mais algumas) e representou-as no grande recreio de Hollywood. Hazanavicius relembrou-nos de que houve crianças que se recusaram a falar… Algumas calaram-se para sempre, outras regressaram quando à fala sucedeu a música. Michel Hazanavicius homenageou o cinema, filmou o cinema e chamou-lhe “O Artista”, o que serve a arte.

Pela minha parte, resta-me aplaudir, de forma bem sonora, aquele aparente silêncio.

Faltas-me

Sentamo-nos e o teu lugar lá está. Desocupado por ti. Olho-te, converso contigo e mastigo o silêncio. Castigo o silêncio.

Confirma-se, Santana Lopes vive num mundo de tias...

Não

August Landmesser, o homem que não fez a saudação nazi

The courage to say 'No'

One man´s defiance of the Nazi regime gets new life on Facebook




«[...]

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não»

Manuel Alegre "Trova do Vento que Passa"
«O líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, afirmou nesta segunda-feira que a terça-feira de carnaval “será um dia de trabalho como os outros” para os deputados sociais-democratas.» [link]


Relativismo histórico e cultural




Imagem de desempregados durante a Grande Depressão.

Na opinião de Passos Coelho, é uma cambada de piegas.

Um post superficial

Acabo de ouvir uma intervenção superficial de alguém que se queixa de intervenções superficiais. Assim nos vamos mantendo à tona de água, à superfície.

Anjos e lobos

O que não é perfeito e se quer imperfeito é, nos dias que correm, uma bênção. As quadrículas imperam e o horizonte já não pode ter um dorso irregular. As vozes querem-se perfeitinhas e as palavras desejam-se assépticas. As ideias pretendem-se alemãs e a bater passo com as continhas. Portugal pretende-se qualquer coisa de certinho e sossegadinho. Houve um tempo em que nos desejavam tributáveis. Agora, estamos num tempo em que nos desejam apenas ver pelas costas. Desafinar é pecado. Eu também gosto de anjinhos, mas têm de ser cantados de forma imperfeita. Como devem ser cantados os anjos em tempo de lobos, desafinadamente.

Bem longe

Manifesto defende que "Portugal precisa de uma Monarquia"


Sinceramente, parece-me que alguns (não todos) dos monárquicos portugueses é que precisam de um país. Um qualquer.

iAbuse

"Apple, gendarme et accusé sur les conditions de travail en Chine"
[Le Monde]

"In China, Human Costs Are Built Into an iPad"
[The New York Times]

Quase lhe chamaram filho da luta



Epic fail, na SIC.

La cage aux folles

Comissão Europeia processa Portugal por não proteger as galinhas poedeiras

«As novas normas europeias exigem que "todas as galinhas poedeiras sejam mantidas em 'gaiolas melhoradas', com mais espaço para fazer ninho, esgravatar e empoleirar se, ou em sistemas alternativos".»


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Era mesmo este o meu ideal de Europa.

Auschwitz - 27 Janeiro



Um mundo sem memória é um mundo condenado.

E assim se escarra na história



Foi agora, em 2012, que um capataz lusitano fez de capacho de uma Alemanha über alles e decidiu escarrar mais um pouco na memória de um país que nunca conseguiu cicatrizar feridas.

Aliás, é um Portugal em negação constante das mesmas. Até a bicheza rasca sabe lamber as suas feridas, Portugal finge não as ter e anda pela história com o corpo em chagas. Não inscreve nada na memória colectiva e as poucas memórias – coisas longínquas e anteriores à miopia de uma cambada de tecnocratas que zombam do humanismo com a mesma alegria com que um analfabeto zomba dos caracteres que lhe formam o próprio nome – que ainda vai tendo servem para ser escarradas por um qualquer ministro de olhos esbugalhado e focinho a fazer lembrar o trombil do queirosiano Conselheiro Acácio.

Foi hoje, mas é como se não tivesse sido hoje. Foi hoje que decidiram que coisas menores como celebrar a Implantação da República ou a recordação da Restauração da Independência nacional devem ser escamoteadas para um canto da sala, envergonhadamente a apanhar o pó do esquecimento. Foi hoje.

De vez em quando, muito de vez em quando, Portugal chega a horas ao encontro com a História. Mas é em vão, pois há sempre um futuro em que surge a mediocridade personificada num anão enfatuado e com mangas-de-alpaca para atrasar o relógio. [link]

Imagens seminais. 90



1927. Metropolis. Fritz Lang.

Uma espécie de paralaxe



Are you talking to Minnie?
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[link]

Imagens seminais. 89



1951. Pandora and the Flying Dutchman. Albert Lewin.

Nosso

Há um mês e um dia disse-te que amanhã te viria ajudar a barbear. Esse amanhã de estar contigo ainda não chegou, mas hoje digo-te o mesmo. O nosso tempo passou a ser nosso, em nós.

Receituário para cicatrizar memórias



Receita prescrita por Miguel Torga. Tomar diariamente, em jejum.

Viver o Livro de Job



Viver o outro lado – a obscuridade de um Job que tenta conciliar na vida o conceito de sublimação do ser e a ascese – e simultaneamente olhar-Te e ter a vontade de Te encostar à parede, apertar-Te os galhetes e perguntar-Te, como ele Te perguntou, se, para matares um homem, era preciso fazê-lo sofrer tanto.

Imagens seminais. 88



1961. La notte. Michelangelo Antonioni.

Imagens seminais. 87



1982. Fanny och Alexander. Ingmar Bergman.

24-11-1943 / 10-12-2011

"[...] ninguém desce vivo de uma cruz."



António Lobo Antunes

A idiossincrasia dos Super Heróis. 17

Imagens seminais. 86




1965. Der Stadtstreicher. Rainer Werner Fassbinder.

Explicação da crise para totós

Torneiras, banheira... enfim, no fundo, resume-se a algo muito simples: meteu-se muita água.

Hoje

hoje não recebi um telefonema teu, mas, quando me perguntares, dir-te-ei que sim, que telefonaste. É o único presente que te posso dar.

Acerca dos dias que correm

"Panic on the streets of London
Panic on the streets of Birmingham
I wonder to myself
Could life ever be sane again ?"


in-diferente

passei a estar também aqui:


in-diferente

Teremos?


Dizia o Torga que todos temos um rio na lembrança.

Amarelecem

lentamente os dias do passado. De alguns perdi a numeração da página. Estão amarelecidos e desordenados.

25 A

Avenida da Liberdade

Subamos e desçamos a Avenida,
Enquanto esperamos por uma outra
(ou pela outra) vida.


Alexandre O'Neill

De cansado

parei
.

Comparação

olhar a paisagem como um bicho

2011 - Debicar



migalhas.
Pardal
Portugal

O ismo do capital




com um rato em tempos de Natal.

Confissão e absolvição...



Quando Dexter imagina a reacção de Deb à sua confissão.


* expressão de Padre António Vieira SJ no Sermão de Santo António aos Peixes.

Porra! Cada vez gosto mais disto:

Boris Vian

L’Écume des Jours

Chapitre XXXIII

«La main de Chloé, tiède et confiante, était dans la main de Colin. Elle le regardait, ses yeux clairs un peu étonnés le tenaient en repos. En bas de la plate-forme, dans la chambre, il y avait des soucis qui s’amassaient, acharnés à s’étouffer les uns les autres. Chloé sentait une force opaque dans son corps, dans son thorax, une présence opposée, elle ne savait comment lutter, elle toussait de temps en temps pour déplacer l’adversaire accroché à sa chair profonde. Il lui paraissait qu’en respirant à fond elle se fût livrée vive à la rage terne de l’ennemi, à sa malignité insidieuse. Sa poitrine se soulevait à peine et le contact des draps lisses sur ses jambes longues et nues mettait le calme dans ses mouvements. À ses côtés, Colin, le dos un peu courbé, la regardait. La nuit venait, se formait en couches concentriques autour du petit noyau lumineux de la lampe allumée au chevet du lit, prise dans le mur, enfermée par une plaque ronde de cristal dépoli.

« Mets-moi de la musique, mon Colin, dit Chloé. Mets des airs que tu aimes.

– Ça va te fatiguer », dit Colin.

Il parlait de très loin, il avait mauvaise mine. Son cœur tenait toute la place dans sa poitrine, il ne s’en rendait compte que maintenant.

« Non, je t’en prie », dit Chloé.

Colin se leva, descendit la petite échelle de chêne et chargea l’appareil automatique. Il y avait des haut-parleurs dans toutes les pièces. Il mit en marche celui de la chambre.

« Qu’as-tu mis ? » demanda Chloé.

Elle souriait. Elle le savait bien.

« Tu te rappelles ? dit Colin.

– Je me rappelle…

– Tu n’as pas mal ?

– Je n’ai pas très mal… »

À l’endroit où les fleuves se jettent dans la mer, il se forme une barre difficile à franchir, et de grands remous écumeux où dansent les épaves. Entre la nuit du dehors et la lumière de la lampe, les souvenirs refluaient de l’obscurité, se heurtaient à la clarté et, tantôt immergés, tantôt apparents, montraient leurs ventres blancs et leurs dos argentés. Chloé se redressa un peu.

« Viens t’asseoir près de moi… »

Colin se rapprocha d’elle, il s’installa en travers du lit et la tête de Chloé reposait au creux de son bras gauche. La dentelle de sa chemise légère dessinait sur sa peau dorée un réseau capricieux, tendrement gonflé par la naissance des seins. La main de Chloé s’accrochait à l’épaule de Colin.

« Tu n’es pas fâché ?…

– Pourquoi fâché ?

– D’avoir une femme si bête… »

Il embrassa le creux de l’épaule confiante.

« Tire un peu ton bras, ma Chloé. Tu vas prendre froid.

– Je n’ai pas froid, dit Chloé. Écoute le disque. »

Il y avait quelque chose d’éthéré dans le jeu de Johnny Hodges, quelque chose d’inexplicable et de parfaitement sensuel. La sensualité à l’état pur, dégagée du corps.

Les coins de la chambre se modifiaient et s’arrondissaient sous l’effet de la musique. Colin et Chloé reposaient maintenant au centre d’une sphère.

« Qu’est-ce que c’était ? demanda Chloé.

– C’était The Mood to be Wooed, dit Colin.

– C’est ce que je sentais, dit Chloé. Comment le docteur va-t-il pouvoir entrer dans notre chambre avec la forme qu’elle a ? »

Com enigmas por dentro



Frederic Bazille

Numa caixa comprada na adolescência

Pete Seeger

Imagens seminais. 85



2004. Kill Bill: Vol. 2. Quentin Tarantino.

Por falar em Saramago...

Saramago

Morreu hoje um dos escritores 'lá de casa' que mais me matou a fome de literatura. E um dos que mais me fez / faz ter fome de literatura. Tudo começou, na minha relação com Saramago, na feliz inquietação provocada pelo “Levantado do Chão”, mas “O Ano da Morte de Ricardo Reis” é o que mais recordo no dia da morte de José Saramago.


«[…] no fim somos como as criancinhas, inermes, mas a mãe está morta, não podemos voltar a ela, ao princípio, àquele nada que esteve antes do princípio, o nada é verdade que existe, é o antes, não é depois de mortos que entramos no nada, sim, viemos, foi pelo não ser que começámos, e mortos, quando o estivermos, seremos dispersos, sem consciência, mas existindo. Todos somos filhos do acaso e da necessidade, seja o que for que esta frase signifique, pensou-a Ricardo Reis, ele que a explique.»

in

“O Ano da Morte de Ricardo Reis”

Imagens seminais. 84




1961. L'année dernière à Marienbad. Alain Resnais.

E eis que...

... num daqueles livros dos tempos de Coimbra (sacana de tempos esses, os que passaram, que já vão amarelecendo os rebordos das folhas) encontro o seguinte fraseado da Clara Rocha (Máscaras de Narciso): "A escrita do eu pode assim ser encarada como uma forma de salvação individual num mundo que que começa a descrer de sucessivos modelos de salvação colectiva."

Texto sublinhado a lápis e redescoberto. Texto que tem o entendimento pleno quando me lembro da qualidade da "escrita do eu" que o pai da Clara Rocha talhava nos seus Diários. Adolfo Rocha, médico: ouvidos, nariz e garganta. Miguel Torga, desassossegador de almas.

Uma verdade clara num filme obscuro.



The Edukators

Desejo

Desejo que hoje sejamos cravos saltitantes. Ando, desde o início do campeonato, a desejar ser campeão no dia de hoje. E não, não é ser campeão no sofá. É ser campeão na rua, onde se fazem as revoluções.

Tom Waits

Tom Waits - "God's Away on Business" video from Anti Records on Vimeo.

Pipe


Ralph Morse 1964

It just gets weirder and weirder…

The Tiger Lillies- Living Hell.

Eis a síntese

I've Told Every Little Pumpkin from Mashed in Plastic on Vimeo.

“O Laço Branco” de Michael Haneke



Fui ontem ver “Das weisse Band - Eine deutsche Kindergeschichte”, titulado em Portugal como “O Laço Branco”.

Foi como se estivesse, neste filme arrebatador de Michael Haneke, a voltar a uma cinematografia depurada como poucas, depurada como a de Dreyer, simples como a de Dreyer, complexa como a Dreyer, perturbadora como a de Dreyer. E nesta comparação vai quanto de injusto pode ir tanto para o Carl Dreyer como para o Michael Haneke.

Vemos o filme e, no final, corremos o risco de fazer a pergunta errada, de olhar para o lado errado. Se perguntamos apenas “quem fez?”, pecamos por defeito. É também necessário fazer a pergunta certa. E a grande pergunta que complementa a anterior é “porquê?” Por que motivo a condição humana tem em si aquilo que Hannah Arendt definiu como “a banalidade do Mal”? Como se combate? Como se manifesta? Como se purga?





Vemos este filme e percebemos como Peter Handke se enganou no seu poema “Lied Vom Kindsein” que inicia o filme “Der Himmel über Berlin” (Asas do Desejo) de Wim Wenders (link). Michael Haneke mostra que a criança nunca foi criança, porque o conceito de inocência está arredado da condição humana.

É na imagem da criança pura, mais próxima da pureza dos inícios, que radica a banal manifestação do Mal. É na pureza simbólica da cor branca do laço – do mesmo laço que serve para nos recordar da necessidade de praticar o Bem – que radica o Mal. No laço branco que algumas crianças trazem como marca visível no braço e no laço branco que o orientador espiritual daquela comunidade traz ao pescoço radicam as banais manifestações de uma natureza estigmatizada pelo Mal. As cicatrizes desse Mal são escondidas por trás das aparências sociais e convencionais de uma vida em comunidade aparentemente harmoniosa e idílica. Apenas na aparência o 'branco' é aqui símbolo do Bem. Como quase tudo naquela aldeia, a aparência contradiz a essência. Deste modo, o 'branco' é aqui ausência de cor, ausência de vida (a morte que a todos leva, como inocentemente uma criança explica a outra), é a cor da mortalha que uma criança inocentemente levanta do rosto da mãe morta, é a cor de um espectro que está presente em quase todos e que quase todos se recusam a ver.

Mas este espectro não está apenas nas crianças, está também nos pilares da estrutura social. É nos “homens de virtude” (desde o Pastor ao médico, passando pelo Barão ou pelo Feitor) que a banalidade do Mal pueril e imaculado dos infantes encontra terreno para medrar. Desde os vícios privados e depravados do médico até à educação espartana do Pastor tudo nos remete para um terreno em que o Bem surge como mera máscara aparente de uma essência maligna.





Naquele microcosmos, naquela pequena, rural, bucólica e aparentemente harmoniosa aldeia está a alegoria de como o ovo da serpente do nazismo (representação última da manifestação exterior e aberta do Mal total, absoluto e… banal) se começou a desenvolver.

Para que a serpente nascesse do ovo bastou a dose certa de banalidade do Mal com a dose certa de indiferença. Voltamos ao início: “por que motivo aconteceu?” e “quem foi?” As respostas são perturbadoras e as respostas estão em nós. Já as respostas estavam em nós em 1914, tal como estavam em nós duas décadas depois, tal como estão em nós quase cem anos depois. E o mais perturbador de tudo é que temos a noção de que daqui a cem anos, através de uma obra de arte, alguém fará as mesmas perguntas e obterá as mesmas respostas. Basta que essa obra de arte represente, alegoricamente, qualquer uma das nossas actuais idílicas e harmoniosas aldeias.

Estamos, tal como na cinematografia de Dreyer, perante a impossibilidade da redenção.

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